Sinval que ser valorizado por título da Copa Conmebol

Sucesso, grandes feitos e reconhecimento, a construção de carreira no futebol por vezes é repleta de êxito. Porém, o fim dela pode apresentar uma realidade bem distinta. Após tentar seguir em outras funções no esporte, Sinval, ex-atacante do Botafogo, vive de empreendimentos no interior de São Paulo. Dono de três motéis, em Andradina, o artilheiro conversou com Esportes 24 horas e recordou a profissão com muito orgulho e saudades.

“Ter jogado em alto nível como joguei me realizou completamente. Quando amador havia muita gente com mais qualidade do que eu. Mas no fim, não conseguiram fazer carreira e eu consegui. O futebol representou muito na minha vida. Tenho bastante saudade. Porém, procuro não me envolver demais, acho que seria pra não sofrer pelo fim”, confessa Sinval.

Em 2007, quando decidiu deixar a profissão, o ex-jogador tentou seguir no futebol em outras funções. Chegou a treinar o Misto-MS, em 2010, mas a fraca campanha no Campeonato Sul-Mato-Grossense o fez sair do time com apenas três meses. Atualmente, sem a pretensão de voltar ao meio, Sinval conta como foram as experiências fora das quatro linhas.

“Após encerrar minha carreira, pensei em atuar como auxiliar técnico. Tive uma experiência de quatro meses na Portuguesa. Depois fiquei três como treinador do Misto-MS. Na época os jogadores me ligavam logo de manhã dizendo que não tinha café, remédio, dinheiro para mandar para casa. Aí eu vi que não era o caminho que devia seguir. Três anos atrás a ideia ainda me seduzia, agora já mudei a chave”, revela.

Sinval em sua casa em Andradina no interior de São Paulo

Sinval é artilheiro do único título internacional conquistado pelo Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal | Sinval)

Antes de se tornar empresário, Sinval rodou o país e se aventurou na Europa. O ex-jogador conta ter vivido sua maior dificuldade na carreira no velho continente. Quando estava no FC Lugano, da Suíça, o atleta sofreu uma lesão no joelho e foi obrigado a fazer uma cirurgia. O procedimento deixou fora dos gramados por oito meses. Ainda assim, o atacante voltou ao Brasil e teve passagens por Coritiba, Santa Cruz, Portuguesa, Vitória e Botafogo, onde conquistou a Conmebol, em 93.

Conmebol de 93, alegria e lamento

“Há coisas que só acontecem com o Botafogo”. O famoso chavão alvinegro simbolizou o título da Conmebol de 1993. Antes da competição, poucos eram os torcedores que acreditavam na conquista. Para grande parte da opinião pública, o elenco tinha sérias limitações técnicas. Porém, foi essa equipe que conseguiu o feito que nem Jairzinho, Nilton Santos e Garrincha conseguiram. Ganhar o único troféu internacional do clube, reconhecido pelo FIFA.

Mesmo com tamanho feito, os jogadores daquele grupo revelam a falta de reconhecimento por essa conquista. Artilheiro da equipe na competição, Sinval expõe o desinteresse do Botafogo e revela a dificuldade na promoção de ações para homenagear aquele time.

“Devo muito ao clube pela projeção que me deu. Mas, com certeza, gostaríamos de ter um reconhecimento melhor do Botafogo. Um exemplo, eles fizeram camisas em homenagem aos títulos de 68,89 e 95. Infelizmente, não existe nenhuma condecoração assim para nós. Falta um mês para os 25 anos do título da Conmebol e o marketing não trabalha isso junto a torcida. A instituição não explora o nosso feito”, desabafa Sinval.  

Fator Carlos Albertos Torres

Carlos Alberto Torres comemora título da Copa Conmebol ao lado do goleiro Willian

Carlos Alberto Torres foi o técnico do Botafogo na conquista da Copa Conmebol (Foto: Divulgação | Conmebol)

Vivendo um período sem qualquer centavo no caixa, Botafogo teve que construir um elenco do zero. Desta forma, a diretoria apostou em muitos jogadores da base alvinegra, jovens desconhecidos e alguns emprestados, chegaram para formar a equipe. O grande craque daquele grupo estava no banco de reservas, Carlos Alberto Torres. Sinval conta que o modo que o “Capita” motivava o time foi determinante na conquista.

“Como eu digo sempre, nós tínhamos uma pessoa de referência que tinha em mãos atletas com sonho a serem realizados. Com isso, compramos a ideia dele de que éramos capazes de fazer coisas boas e conseguimos”, afirma o artilheiro.

A dificuldade era muito grande. O treinador aceitou a proposta do clube pagando praticamente seu próprio salário. Logo no início do trabalho, não havia bolas para treinar e ele as comprou com seu dinheiro. Além disso, o desempenho dos jogadores nos treinos não o satisfazia, ao ponto dele encerrar o treinamento antes do período. Até hoje, ausência do “Capita” faz falta naquele grupo.

“Atualmente, estamos buscando junto ao clube a realização de um jogo para comemorar o título. A proposta é ser uma partida preliminar de Botafogo x São Paulo, no dia 30. Além disso, vamos lançar um livro sobre a conquista. Porém, estamos encontrando muitas dificuldades de concretizar esses planos. Se Carlos Alberto Torres estivesse vivo seria muito mais fácil”, garante Sinval.

Sinval x Pimpão

Rodrigo Pimpão comemora gol pelo Botafogo

Rodrigo Pimpão fez gols importantes na Copa Libertadores da América de 2017 (Foto: Vitor Silva | Botafogo)

Com uma estabilidade financeira superior à da época, Botafogo de hoje sonha em repetir o feito de 93 e voltar a vencer no continente. Mas outro fato pode ser superado antes. Com oito gols marcados na Conmebol de 93, Sinval carrega o título de maior artilheiro internacional do clube. Porém, Rodrigo Pimpão já ameaça a marca. Para o atacante atingir o topo, precisa marcar mais duas vezes ao longo da Copa Sul-Americana. O detentor da façanha se diz tranquilo, mas faz ressalva sobre essa possibilidade.

“Para mim será normal ver o Pimpão ultrapassar minha marca. Seria natural me superarem em algum momento. O único problema é se esquecerem de mim, todo mundo gosta de ser lembrado pelas coisas boas que fez. (risos)”, brinca o ex-jogador.

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